Após 5 anos tratando tendinite aguda, homem vira palhaço voluntário em hospital: 'Não penso em parar'
31/10/2026
(Foto: Reprodução) Morador de Votuporanga faz trabalho voluntário de palhaçaria hospitalar
O tratamento de cinco anos contra tendinite aguda despertou em um morador de Votuporanga, no interior de São Paulo, a vontade de iniciar o trabalho voluntário de palhaçaria hospitalar.
Em 2003, a rotina estressante e exaustiva em São Paulo (SP), cidade na qual residia à época, obrigou Aldo Hayrton Dezan, de 58 anos, a passar por avaliações, exames e consultas médicas em hospitais para amenizar os efeitos da inflamação, que é caracterizada por afetar os tendões e as estruturas fibrosas por meio dos quais conectam os músculos aos ossos do corpo humano.
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Após cinco anos de tratamento, artista de Votuporanga (SP) vira 'palhaço de hospital'
Arquivo pessoal
Foi em meio à angústia e às incertezas sobre seu quadro de saúde que Aldo teve contato pela primeira vez com a atividade que viria a ser uma das suas grandes paixões. Sua irmã mais nova, Daniela Dezan, de 55 anos, é atriz e coordenou um grupo de palhaços que visitava hospitais públicos da região metropolitana.
Foi acompanhando a atividade dos voluntários que ele tomou a decisão de também ajudar outras pessoas. “Essa experiência me tornou mais sensível para compreender o sofrimento de quem está hospitalizado”, contou Aldo em entrevista ao g1.
Em 2008, após finalizar o tratamento de saúde, Dezan voltou a morar em Votuporanga, cidade onde cresceu, e iniciou as primeiras idas e vindas aos hospitais do interior paulista de forma voluntária. Logo, passou a fazer parte de um grupo no qual os integrantes têm a missão de transformar a apreensão presente no dia a dia de pacientes internados em momentos de alegria.
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Da dor ao riso
Grupo de Palhaços de Votuporanga (SP) — Clown Zero — visita voluntariamente hospitais da região
Arquivo pessoal
Hoje, Aldo é coordenador do grupo. O projeto desempenhado pelos voluntários é viabilizado por meio da Lei de Incentivo à Cultura. A verba recebida através do Governo Federal é utilizada para custear figurino, maquiagem, deslocamento da equipe e outras despesas decorrentes da atividade voluntária. Já as instituições de saúde beneficiadas pela iniciativa não precisam dispor de recursos financeiros.
A equipe é composta por atores, com direção e produção, que desenvolvem as ações baseadas na pesquisa, nos ensaios e no aperfeiçoamento da “linguagem do palhaço". O atendimento é viabilizado por meio de diálogos com as instituições, respeitando as orientações das equipes de saúde, a rotina hospitalar e os limites de cada paciente.
“O que me motiva é, apesar de tudo, o amor pelo que faço e a certeza de que a arte pode fazer diferença na vida das pessoas, especialmente em um momento de fragilidade. O carinho que recebemos dos pacientes, familiares e profissionais de saúde, somado à procura pelo nosso trabalho, renova nossa vontade de continuar e ampliar essa atuação”, contou o coordenador da equipe.
Aldo Dezan trabalha com palhaçaria de hospital há 18 anos no noroeste de SP
Arquivo pessoal
Além da atividade voluntária, Dezan trabalha como arteterapeuta ao ministrar aulas para crianças em situação de vulnerabilidade.
Pessoas beneficiadas
A área de atuação do grupo é centrada também em São José do Rio Preto (SP), cidade que abriga um dos maiores complexos hospitalares do Brasil — o Complexo Hospitalar Funfarme (Fundação Faculdade Regional de Medicina de São José do Rio Preto).
A rede de hospitais atende mais de 1,7 milhão de pacientes da região noroeste paulista e de todo o país, segundo dados divulgados pela Funfarme.
Complexo Funfarme é uma das maiores redes hospitlares do país
Foto: Fundação Faculdade Regional de Medicina de São José do Rio Preto
“Nosso trabalho acontece principalmente por meio do improviso, utilizando música, mímica, mágicas e brincadeiras para criar conexões com as pessoas. Não se trata apenas de fazer rir, mas de perceber cada situação e oferecer uma experiência artística e humana respeitosa”, explicou o palhaço.
Novos horizontes
Além das visitas regulares aos pacientes de hospitais em São José do Rio Preto e Votuporanga, a equipe também participa de ações e campanhas internas.
“Esse trabalho mexe comigo porque é impossível entrar em um hospital e permanecer indiferente ao sofrimento das pessoas. Existem situações que nos sensibilizam profundamente, principalmente porque também vivi momentos de incerteza durante meu próprio tratamento”, relembra Aldo.
Questionado pela reportagem se tem a intenção de parar a atividade, Dezan é convicto em sua resposta: “Não penso em parar neste momento. A palhaçaria hospitalar se tornou parte da minha vida, e, depois de tantos anos, continuo motivado a estudar, aperfeiçoar e ampliar esse trabalho. Sei que existem desafios, mas a procura pelo nosso trabalho e o retorno que recebemos das pessoas nos dão motivos para continuar”, finalizou artista.
Equilíbrio emocional
Procurada pela reportagem, a psicóloga rio-pretense Eliane Prates Nogueira, de 41 anos, explicou que a iniciativa ajuda no equilíbrio emocional dos pacientes em hospitais.
“Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, sabemos que a maneira como interpretamos as situações influencia diretamente nossas emoções e comportamentos. O humor e as experiências agradáveis podem contribuir para aliviar a tensão emocional, diminuir temporariamente o foco nos aspectos difíceis do tratamento e favorecer emoções positivas”, conta.
Eliane Prates Nogueira, de 41 anos, é psicóloga em São José do Rio Preto (SP)
Arquivo pessoal
Ainda conforme a especialista, as interações entre as pessoas que estão internadas e os voluntários fortalecem os vínculos sociais e podem encorajar aqueles que mais precisam.
“É importante compreender que rir não significa ignorar o sofrimento ou minimizar a gravidade da doença, mas permitir que outras experiências emocionais também tenham espaço durante esse processo. O paciente continua sendo uma pessoa com desejos, interesses, vínculos e possibilidades, e não apenas alguém em tratamento”, finaliza Eliane.
* Colaborou sob supervisão de Henrique Souza
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